O Ouriço Pip e o Pote dos Pequenos Tesouros
Para 6 a 8 anos · 6 min de leitura
Bem debaixo do velho carvalho, num ninho de folhas secas e musgo, morava um ouricinho chamado Pip. Seu ninho era pequeno, redondo e quentinho. Espinhos macios cobriam suas costas, da cor de casca de árvore. Sua barriguinha cor de creme subia e descia, devagar e suave.

Era fim de tarde. A luz tinha a cor do mel. Pip deu um bocejinho e esfregou um olho com a patinha. Lá fora, o vento mexia as folhas, suave como uma respiração.
Pip era um ouriço tímido. Falar era difícil para ele. Então guardava as palavras por dentro, e guardava tesouros no lugar. Numa pequena prateleira ao lado da cama havia um pote de vidro redondo. Era sua coisa preferida no mundo todo.
Nesta noite, Pip pegou o pote. Segurou-o bem perto. Dentro estavam todas as coisinhas que ele tinha guardado naquele ano. Cada uma era um presente. Cada uma guardava uma lembrança.
Ele virou o pote devagar na patinha macia.
A primeira coisa a sair foi uma pedrinha cinza e lisa. Pip abriu um sorriso pequeno. A Lontra tinha lhe dado essa pedra perto do lago. Tinha achado na água fresca e colocado na patinha do Pip. "É para você", disse a Lontra. Pip não achou suas palavras naquele dia. Mas guardou a pedra. E a pedra dizia obrigado por ele, toda vez que ele a segurava.
Depois veio uma peninha macia, marrom e branca. A Coruja tinha deixado cair lá do galho alto. Ela desceu devagar, devagar, devagar, e pousou bem no nariz do Pip. Agora Pip encostou a pena na bochecha. Era quente como um sussurro. Ele pensou na Coruja lá no escuro, cuidando da floresta, e o coração ficou mole e feliz.

A noite ficou quieta ao redor do carvalho. Alguns grilos cantavam sua musiquinha devagar.
Pip mexeu no pote de novo. Saiu uma folhinha seca, dourada nas pontas. O Veado tinha empurrado a folha até ele num dia fresco de outono. Eles tinham caminhado juntos, devagar e lado a lado, sem dizer nada. Pip gostava disso. Alguns amigos não precisam de palavras. O Veado era esse tipo de amigo. Pip pôs a folha na patinha e sentiu gratidão, até a pontinha dos pés.
Um a um, Pip tirou seus tesouros. A tampinha redonda de uma bolota, da Guaxinim. Um pedacinho de lã vermelha do cachecol velho do Urso. Uma conchinha branca que a Capivara tinha trazido do rio, só para ele. Cada coisinha era uma bondade que alguém tinha dado. Cada coisinha era um amigo que tinha pensado no quietinho Pip.
Ele enfileirou tudo sobre o musgo. Brilhavam na última luz cor de mel.

Pip olhou para tudo. O peito ficou cheio e quente, como o sol depois da chuva. Tantos amigos. Tantos presentes pequenos e suaves. Nem sempre ele soube o que dizer. Mas eles o amaram assim mesmo. E ele guardou cada pedacinho desse amor, bem seguro dentro do pote.
"Obrigado", sussurrou Pip. Disse bem baixinho, só para si mesmo, só para a noite. "Obrigado, obrigado." As palavras vieram fáceis agora, suaves como folhas caindo.
Lá fora, o céu ia ficando fundo e azul. A luz de mel quase tinha sumido. Pip bocejou de novo, um bocejo maior dessa vez. Os olhos pesavam nas pontas.
Devagar, um a um, ele guardou os tesouros. A pedra. A pena. A folha dourada. A tampinha de bolota. O pedacinho de lã vermelha. A conchinha branca. Cada um deslizava para dentro do pote com um som baixinho. Cada um um obrigado, guardado em segurança.
Pip apertou a tampa com cuidado. Pôs o pote de volta na prateleira, onde o luar podia tocá-lo.
A floresta estava bem quieta agora. Os grilos tinham ido dormir. O vento tinha parado. Lá no alto do carvalho, surgiu a primeira estrela. Depois outra. Depois um punhadinho suave de estrelas.
Pip se enrolou nas folhas. Puxou um pouco de musgo por cima, como um cobertor. Era quente. Era macio. Ele deu um suspirinho de sono.
Pensou na Lontra e na pedrinha cinza e lisa. Pensou na Coruja e na pena que flutuou. Pensou no Veado, andando devagar ao seu lado. Pensou em todos os amigos, pertinho e quentes, mesmo no escuro.
Seus espinhos se acomodaram. Sua respiração ficou lenta. Para dentro, para fora. Para dentro, para fora.
Dorme agora, pequeno Pip. Dorme agora.
O pote brilhava suave no luar. As estrelas brilhavam suaves no céu. E no seu ninho pequeno e redondo, o ouricinho sorriu, cheio de gratidão silenciosa.
Seus olhos já estavam fechados. Suas patinhas, paradas. A noite o abraçava com carinho, como um amigo.
Durma bem, querido Pip. Durma bem.
Boa noite.